Mesmo que você nunca tenha assistido a um episódio do reality Big Brother Brasil 2021, aposto que já deve ter lido alguma notícia narrando a tortura psicológica que o participante Lucas sofreu enquanto esteve na casa.

Ressalvas a parte sobre a tristeza de ver as mazelas da psique humana sendo aclamadas como diversão, creio que exceto nas novelas ficcionais, até hoje não tivemos a exposição de tortura psicológica de forma tão evidente.

Mesmo assim, nas últimas semanas li diversos comentários distorcendo a história… Inclusive que o rapaz teria dado causa a tudo que viveu no confinamento, inclusive com comentários pra lá de imparciais do diretor do programa.

Ora, se cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, não cabe ao outro estampar em praça pública nossas fragilidades.

Isso porque, todos nós temos nosso “calcanhar de Aquiles”[1] e, apesar de passarmos parte da vida escondendo-o do mundo, no fundo, todos nós sabemos o que nos causa a dor na alma, que machuca sem nenhum toque…

O grande problema é que muitas vezes a convivência nos leva a deixar à mostra o tal “calcanhar” e, como o herói grego que era tido como invencível, somos apunhaladas e despencamos pro fundo do poço (sem direito a cordinha).

Essas atitudes maldosas, que muitas vezes partem de pessoas com as quais mantemos relações próximas, são as torturas emocionais ou psicológicas. No artigo anterior eu falei da Lei Maria da Penha, estão lembradas? Pois bem, a tortura emocional é a causa mais comum de agressão contra a mulher e consta no rol de delitos da Lei Maria da Penha. Pode acontecer de diferentes formas: ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, etc, ou “qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.

Mas e quando a vítima é homem?

A Lei nº 9.455, de 7 de abril de 1997 (que define os crimes de tortura) classifica como tortura, com pena de prisão de 02 a 08 anos:

I – constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental:

(…)

  1. c) em razão de discriminação racial ou religiosa;

E mais, o crime de tortura é de ação penal incondicionada – ou seja – a vítima não precisa manifestar a vontade de promover a ação penal contra o agressor, isso será feito pelo Ministério Público, bastando que ele tenha conhecimento do crime.

Vivemos um momento no qual muitos acreditam serem donos da verdade. Verdade essa que ninguém sabe onde está, mesmo assim, fazem questão de apontar o dedo na cara do outro e mostrar uma autoridade imaginária, que o único poder que carrega é machucar o próximo.

A violência física deixa cicatrizes no corpo, a violência/tortura emocional deixa cicatrizes na alma, que cosmético algum é capaz de disfarçar.


[1] Herói da mitologia grega que morreu ao ser atingido por uma flecha no calcanhar – único ponto vulnerável do seu corpo. Conta a mitologia grega que a mãe de Aquiles mergulhou a criança no rio Estige, um dos que banham o inferno, para que ele fosse imortal. No momento da imersão ela segurava seu calcanhar e, por esse motivo, ele ficou vulnerável nesse local.

Até logo, Amoras!